Flocos

Eu sou um floquinho de neve.

Estou caindo do céu, indefeso e sem controle sobre mim; em meio a milhões de outros floquinhos iguais.

Olho para o cemitério de floquinhos. Há um garoto a brincar na imensidão de neve feita de nós.

Sou tão pequenino e insignificante; ninguém nunca vai me perceber. Assim, sozinho e desconhecido, nem sequer existo.

Assim que eu cair no solo, serei pisado. Ou quem sabe o garotinho me amontoe com outros mil flocos sem importância e faça de mim uma bola de neve. Talvez ninguém nunca me note, e eu serei esquecido, ali, a aguardar meu fim.

***

Há um garoto a brincar. Você ainda não o conhece, então é como se ele não existisse para você. Posso dizer que este garoto é de um jeito ou de outro, que ele sente frio, que é a primeira vez que ele vê a neve ou que para ele toda vez é única. Se eu disser coisas assim, então talvez este garoto se torne especial para você.

O tempo passa e o garoto se perde, morre, dando lugar a uma versão mais velha dele. Antes tudo era o céu, a vida, a simplicidade do ser, de passar os dias experimentando novas sensações de novo e de novo. Os amigos, os machucados, o medo, o sopro do vento, a chuva.

O garoto cresce e se pergunta alguns porquês. As coisas simples já não importam, as coisas importantes machucam — e nem se tornam boas histórias para contar — O homem já não é um garoto, e ele tenta, o tempo todo, voltar atrás e reencontrar aquele que o fez feliz — o garoto.

Tentando tornar o garoto único, lhe damos um nome. Lucas, talvez.

Existem mil garotos chamados Lucas, então Lucas não é único. Se Lucas não é único, Lucas não é ninguém. Floquinhos e garotos caem do céu.

Um floquinho diz sim, o outro diz não. Um garoto possui memórias únicas, enquanto outro garoto possui outras memórias únicas. Um floquinho tem uma perspectiva, outro floquinho tem outra perspectiva.

Este Lucas eu conheço, o outro, não.

Meu floquinho brilha, em meio a floquinhos apagados.

***

Eu sou um floquinho de neve caindo do céu.

Estou perto do chão e vejo uma mão a me amparar, esperando por mim. Sou aconchegado por um garotinho, e espero que este momento dure para sempre, mas não dura. Em breve me tornarei lágrimas de gelo.

Apesar de tudo, foi bom ter sido, assim, um floquinho de neve especial.

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